terça-feira, 3 de novembro de 2009

(01/10/2007)

A jornalista Denize Guedes, filha do comissário aposentado da Varig Amaury Antunes Guedes, de 72 anos (leia reportagem com ele aqui), vai à infância e relembra episódio com o Instituto Aerus de Seguridade Social.



O Aerus é o fundo de previdência da Varig para seus funcionários, que, desde 2006, não paga quem por ele pagou uma vida toda. Uma decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça), na semana passada, deve pôr fim à questão, com o pagamento aos aposentados.






Leia agora o texto de Denize Guedes:


Naquele 1982, eu contava apenas três anos de idade e era uma criança bastante normal. Meu único porém era a grande falta que sentia do meu pai quando ele ia trabalhar. Não era para menos, comissário de bordo da Varig, ele passava dias e dias viajando. Ao todo, foram mais de 35 anos de dedicação à companhia, entre radiotelegrafista, comissário e chefe de equipe.


Minha mãe lembra que eu ficava muito feliz – eufórica a ponto de perder o ar – quando ele voltava de uma viagem. A primeira coisa era matar a saudade. Depois, abrir brinquedinhos, vestidinhos e chapéuzinhos que ele sempre me trazia de todas as partes do mundo. Em uma dessas idas e vindas, em 1982, meu pai conta que trouxe uma coisa diferente.


Era um livretinho – distribuído na Varig mesmo. Segundo ele, era para eu ir me familiarizando com a leitura. Falava de um tal de Aerus, um fundo de pensão que, também segundo meu pai, iria garantir tranqüilidade à nossa família no futuro. Mas eu era muito pequena para saber o que era futuro e fiquei contente só em folhear – e rabiscar – o livreto.


Quinze anos depois, uma coisa provável e outra improvável aconteceram. A primeira foi eu ter tomado real gosto pelas letras e, como conseqüência, ter me tornado uma jornalista. A segunda foi o futuro da nossa família não ter se transformado exatamente em algo tranqüilo... Isso sem nem falar em que a estrela brasileira já não ilumina o céu azul do país como em 1982.


Ao contrário do que aquelas páginas coloridas davam como certo, o Aerus não tem mais sido capaz de trazer bem-estar e condições de segurança para o meu pai nem para os milhares de profissionais – e dependentes – que confiaram nos personagens simpáticos que apresentavam as vantagens de se fazer parte desse instituto de (in)seguridade social.


Desde 12 de abril de 2006, sete mil aeroviários e aeronautas vêm sendo privados de viver dignamente os melhores momentos de sua vida – ora, não tem sido cada vez mais conhecida como "melhor idade" a fase da aposentadoria? O fato é que a real história, escrita dia a dia fora dos quadrinhos, é de privação de um benefício que lhes é de direito – depois de suor e economia ao longo de anos de trabalho.


Apenas uma coisa continua verdadeira no livreto: "O AERUS SOMOS TODOS NÓS", trazida na contracapa. De fato, o esforço de mobilização em prol de contribuições naquele tempo chega a ser menor que o de hoje em busca de se fazer valer o direito da pensão.


Em vigílias nos aeroportos, audiências no STJ e STF, encontros com o ministro da Previdência ou em sessões no Congresso Nacional, meu pai e seus colegas não esmorecem. E talvez essa, infelizmente, tenha sido a melhor lição aprendida por mim.


"(Agência Brasil) Brasília – O Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou hoje (26 de setembro), por unanimidade, recurso apresentado pelo Ministério Público Federal (MPF) e manteve a decisão que obriga a União a pagar à antiga Varig (Viação Aérea Rio-Grandense) uma indenização de R$ 3 bilhões (valores de 1992), relativos aos prejuízos causados pelo congelamento de tarifas aéreas durante o governo Sarney (1985 a 1990).


(...) Parte do valor da indenização, segundo o diretor de Assuntos Previdenciários do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Luiz Sérgio de Almeida Dias, deverá ir para o fundo de pensão da Varig, o Instituto Aerus de Seguridade Social, e será utilizada no pagamento de aposentados e pensionistas. A outra parte deverá saldar dívidas trabalhistas."




fonte:Jornalirismo

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